domingo, 23 de novembro de 2008

A feia ( A ditadura da beleza massacra ...)


No nosso mundo contemporâneo-automático-instantâneo-eletrônico, ser feio de doer virou uma afronta social a todos os seres bípedes que enxergam.


Sobrou para uma das representantes de um mundo marginalizado e cruel -Mulher de uma feiúra de nascença, Mara sentia , desde a sua mais tenra infância , que ninguém queria ser seu par na quadrilha;nas festas de halloween, diziam em meio às chacotas, que não precisava de máscaras...Essa pérolas típicas de criança , que pelo grau de autenticidade, podem chegar ao extremo do sadismo.


Na adolescência,uma timidez praticamente reacional. Os bailes , sempre constrangedores-nenhum idiota cego ou de pouca auto-estima numa petição por uma dança...No máximo , era vítima de apostas para quem pegasse a mais feia da festa ; quando caminhava pelo salão,ouvia insultos- BUM! Sempre aquela onomatopéia familiar,referindo-se a bombas e canhões , além de engraçadinhos dizendo-lhe : "Deus me livre! Sai ,cão dos infernos”!


Ela era uma ostra disforme recheada de pérolas :inteligente, daquele tipo poliglota e que sabia falar de tudo um pouco, cuidava de seus amigos e familiares, não era vulgar como algumas belas de sua turma e extremamente doce.Mas , quem gostava de beleza interior com uma cara dessa de porco-espinho? 1,64m e 90 kg, cintura galinácea, olhos encovados ,nariz de abridor de garrafa, cicatrizes infinitas de acne...Sei lá ,não dá para descrevê-la direito , porque nada combinava com nada, perante os padrões de beleza atuais.


Sentia-se como uma escória social ,um esgoto a céu aberto em que as pessoas atravessavam-no num pulo já esquecido.


Mas,sempre existe o ápice de um estorvo-Estava humildemente encostada num canto de uma casa de forró , quando um "cabra", no último estágio de embriaguez,pediu-lhe uma dança, cuspindo a esmo , trôpego quase numa síncope:

-Vamos?


-Não,obrigada! - Desconcertada,porém sempre educada.


-Tou fazendo uma caridade,viu? Porque tu é feia,hein? E não é pouco!Tou bêbado, mas não tou doido!


Aquilo ali foi o apogeu de sua crise existencial-até um ébrio quase comatoso! Sua feiúra era imune às mais pesadas doses de cachaça...Ou ela se conformava ou mudava a situação de maneira radical- dito e feito.Resolveu fazer uma cirurgia plástica do tipo” eu não me suporto da cabeça aos pés ".


Não é que a ostra transfigurou-se em pérola? Os homens lhe perguntavam:


- Como é que uma mulher assim , tão fascinante, passou despercebida?

Fingindo não entender: - Também não sei...






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